O tempo e a prática de ásanas

Após mais de uma década (contínua) de práticas de ásanas, posso afirmar categoricamente que é na perspectiva das décadas que os grandes insights ocorrem nessa prática. A sutileza dos bandhas, do equilíbrio quase impossível entre força e leveza, entre estabilidade e resistência, do gasto de energia e, sobretudo, o foco tão almejado da respiração e o tal fluir respiratório e mental só são atingidos com a maturidade da prática.

Fora isso, a perspectiva que o tempo oferece à prática desnuda nossos venenos, tais como – vaidade, preguiça, ciúmes, competitividade (consigo mesmo e com outros), soberba, onipotência, arrogância. Todos surgem em determinado momento da vida de um praticante e não adianta negar porque invariavelmente chegam. Porém, é justamente na prática constante e ininterrupta que todas as oportunidades de aprendizado surgem – seja por meio das dores, das contusões, das limitações físicas, do envelhecimento corporal, das novas gerações que chegam e dos não tão mais novos que envelhecem. Porém é pelo Senhor dos Destinos – tempo, tempo, tempo – que as maiores lições e transformações são atingidas.

A prática é para a vida toda, mas quem disse que deva ser igual. Se a vida é um movimento constante e fluido porque a sua prática não deve mudar ? Para contribuir com essa reflexão, que tem me despertado cada vez mais interesse, me aproprio das palavras de um dos professores mais relevantes do universo do Asthanga Vinyasa Yoga – Tim Miller.

krishnamacharya2

“Krishnamacharya (um dos professores de hatha yoga mais importantes do século XX) disse certa vez que a prática do Yoga deveria mudar com as estações do ano e com o passar dos anos na nossa vida. Não seria apropriado praticar da mesma maneira no inverno e no verão, assim como na juventude, na fase madura e na velhice. Na primeira, assim como em nossas vidas, é um período ou uma fase repletas de jovialidade, entusiasmo e, portanto, nossa prática reflete o mesmo tipo de energia. O verão é o período de amadurecimento da nossa prática, é quando atingimos o ápice físico na prática de ásanas. Com a chegada do outono em nossas vidas nossa prática tende a ser mais introspectiva – com maior dedicação à pratica dos pranayamas (exercícios respiratórios), mantra, práticas devocionais, meditação e estudos filosóficos –  é tempo de recuar um pouco na intensidade na prática dos ásanas.  Quando o inverno em nossas vidas se inicia – fase em que estou nesse momento – a prática se torna ainda mais introspectiva. É importante continuar a prática de asanas para se manter saudável e razoalmente flexível, mas é irreal achar que podemos praticar da mesma forma aos 65 assim como aos 35. Ainda mais que nessa fase da minha vida tenho muito mais dores, sou um pouco mais largo no abdómen, e não tenho tanta força e flexibilidade assim como costumava ter. Ainda amo minha prática e continuo a fazer a primeira e segunda séries (asthanga) com regularidade. Em alguns dias, pratico a minha sessão especial (Asthanga para seniors), na qual contém partes da primeira e segunda séries, com poucos vinyasas no intervalo de uma hora. Um dos maiores presentes que a idade oferece em termos de prática de ásana é – quanto mais você pratica, maior e melhor a qualidade da sua atenção na prática. Afinal de contas, não é sobre isso que se trata?“

Tim Miller.

 

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