Fazendo as pazes!

Minha infância foi repleta de crises de bronquite e alergias. Por muitos anos ouvi que era fraca e doente. De fato, a insuficiência respiratória produziu uma série de limitações físicas. Pouco oxigênio no corpo, menor troca de gases, menos combustão física, menos energia. Durante um período da minha infância fui uma menina magra, com olheiras e pele cor amarelada devido a pobre oxigenação nos tecidos dos órgãos. Muito letárgica e mole vivia com sono, preguiça e indisposição.

Graças aos meus pais, por volta dos 8 a 10 anos entrei na natação. Tornei – me uma atleta amadora. Nunca fui uma nadadora brilhante, as limitações respiratórias, embora tenham sido superadas, impunham algumas barreiras ao meu desenvolvimento na natação. Porém, a debilidade física inicial imprimiu um condicionamento mental e emocional que me fez, de forma inconsciente, acreditar que era fraca. Não pensava nisso, mas lá no fundo estava essa ideia de que era limitada, de que não conseguiria.

A fase da natação cessou, a fase da Universidade chegou, a vida profissional veio e novos desafios chegaram. Sempre tive a certeza que a melhor maneira de enfrentar meus medos era ignora-los e seguir em frente. Esse seguir em frente me ajudou a ultrapassar barreiras sociais, culturais e físicas. Contudo, vire e mexe, estava eu lá ignorando essa menina perdida que por vezes saia dos porões do inconsciente e me congelava. Por vezes não entendia o que acontecia.

Aos 30 e poucos anos me deparei com uma (dentre outras) das grandes fissuras estruturais da vida. Tudo ao meu redor era areia movediça – fui arrancada abruptamente de uma relação que acreditava ser boa e segura, o super emprego e todo o status agregado desabavam sob meus olhos. O mar de cruzeiro começava a dar sinais de que uma tempestade iria me sacudir por inteira. Entrei em um período sombrio da vida. Certezas abaladas e sem ao certo saber por onde andar. A sensação era de que haviam rasgado uma cratera no chão e me pendurava pelos dedinhos para não cair.

Em meio ao desespero a única coisa que passava pela cabeça era sair. E é nesse fôlego gutural de vida que resolvi me jogar sozinha pela América Inca por 40 dias. Precisava provar para mim mesma que era capaz (olha a voz lá no fundo dizendo que era fraca). Precisava desesperadamente entrar em contato comigo, me reencontrar, mesmo sem saber ao certo o que esse contato significava.

Ao voltar da aventura Inca, decidi retomar um projeto antigo que parei aos 20 e poucos anos. Yoga!

Desde estão, as mudanças foram profundas. Você pode pensar que fui feliz para sempre (doce ilusão). Não! Minha vida não foi um paraíso. Perdi o emprego, me separei de vez, saí do meu ap… Tudo foi saindo da minha vida.

A medida que ia perdendo o que achava ser tudo, me jogava ainda mais na yoga. O único mastro que me dava alguma referência. Praticava duas vezes ao dia, fazia todos os retiros… mudei alimentação (sem perceber). E comecei a ver o medo de perto, sem nenhum intermediário. A cada respiração aprendi a me entregar, a entender como crescer diante do medo e acalma-lo. Aos poucos a menina fraca que ainda adormecia em mim se viu fazendo vários ásanas que exigiam muita força. Os braços foram avolumando. O peito se abriu e tudo foi acontecendo.

Desde então tem sido uma jornada de muito aprendizado e amadurecimento. Não me iludo e, tampouco, você que me lê – os abismos por vezes ainda se abrem e as quedas ainda acontecem, mas já não caio assustada. Sei que é possível cair e curtir a queda. Que é interessante descobrir novas entranhas na escalada e construir novas oportunidades de subida. Entendi que a vida é assim mesmo. Segue em movimentos tortuosos, repletas de quinas que por vezes machucam, mas são nesses contornos, quinas e vácuos que as chaves de leitura se abrem. É no pulo do obstáculo que me surpreendo comigo mesma.

Hoje, faço um balanço dos caminhos que se abriram e avalio que sempre estive dialogando com aquela menina, sempre querendo me afastar dela. Tive muito medo de encara-lá.

Foi no silêncio que pude conhecê-la. A cada inspiração e exalação, estava eu lá, aquietando-a e abraçando-a.
Ela continua habitando minhas várias versões, mas agora posso olhar para ela e conversar sobre nossos medos.

Ainda hoje faço as pazes com ela a cada postura de força que executo, a cada movimento que faço, a cada guinada que dou na vida. Pego na mão e vamos juntas. E ela sempre me surprende ao sorrir para mim.

E você, com quem tem dialogado?

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