Reflexões quarentena

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Um pouco mais de 30 dias de quarentena e a pergunta que sempre vem a minha cabeça é: quais fichas precisam cair? O que quero levar dessa experiência intensa da quarentena?

Algumas, obviamente, são bastante compartilhadas por uma imensa massa de pessoas, principalmente por aquelas abertas às mudanças que o novo estilo de vida imposto pela quarentena tem produzido. Mas, e individualmente, quais as fichas que precisam cair? Como se vê, sente, pensa, reage e toca a sua quarentena?

Bom, não é um processo simples e óbvio. Há muito sofrimento e medo envolvido. Tampouco, não há referências anteriores de como viver um isolamento parcial e/ou total em nossas vidas. Porém, às duras penas, estamos produzindo novos estilos de se relacionar, de se reconectar com nós mesmos e com os outros.

É nesse caminhar sem caminhar que surge, a meu ver, uma das inflexões mais intensas  dessa experiência coletiva: a capacidade de enxergar o que é realmente importante, prioritário, essencial em nossas vidas para atingirmos um estado de plenitude e paz interior. Estamos sendo levados ao limite dessas questões.

Produzimos muletas, necessidades, vontades que pouco estão relacionadas às nossas necessidades essenciais. Comprar, preciso, comprar, preciso, mais, mais e mais. É impressionante como somos capturados e inundados por necessidades de consumo, de viver experiências novas, experiências especiais, únicas e de intenso prazer. Em tempos de minimalismo forçado, freio brusco e ruptura drástica deste padrão espiral de desejos e prazeres, o não essencial se torna radicalmente supérfluo.

Nos tornamos seres humanos gastadores de tempo para nada. Nosso tempo, em grande parte, é voltado para o preenchimento de muitas necessidades que não somam em nada com a tão ansiada paz e plenitude. E, nessa armadilha mental,  inflamos nossos desejos na ilusão quase infantil de que a realização deles nos trará a felicidade almejada. Prazer sim, felicidade não.

Dentro da tradição do yoga, prazer não se relaciona com felicidade. Até porque somos plenos e em essência felizes. Observe as crianças, são felizes e plenas somente com as condições mínimas para sua sobrevivência: alimento, casa e genuíno amor. Irradiam alegria e paz.

Diferentemente do que se propaga no mundo do excesso, realizar um sonho pode não estar relacionado necessariamente a realização de sua felicidade, mas a concretização de devaneios sustentados por desejos. Nos jogamos numa corrida infinita, a cada desejo presente em nossa mente corremos atrás para satisfaze-lo sem jamais nos saciarmos.

Muitos mestres da tradição do yoga repetem e reafirmam que a matriz de todas as formas de sofrimento consiste justamente na nossa incapacidade de nos vermos como indivíduos plenos e felizes. A crença de que a felicidade está relacionada a satisfação de nossos desejos é o grande equívoco de nossos tempos. A corrida desenfreada é a porta para sentimentos paralisantes, uma vez que a possibilidade da perda das conquistas leva ao medo e, consequentemente, a uma série de emoções, sentimentos negativos, preocupação, ansiedades, entre tantos outros que nos distanciam de tudo aquilo que almejamos.

Não nego que a concretização do prazer gera uma certa saciedade, paz e até podemos dizer felicidade. Somos inclinados a busca-lo, porém, é perecível, finito e incompleto. E, é justamente, nessa fugacidade da conquista que parte dos problemas começa a surgir e caímos na armadilha de acreditamos que a satisfação dos desejos é a solução para encontrar a felicidade.

A quarentena, de modo radical, coloca em perspectiva nossas certezas e fórmulas de felicidade. Fórmulas, que por vezes, nem jorram de nós mesmos, mas são apresentados como encantamentos para nos anestesiar na matrix insana que insiste em nos massacra.

Afinal de contas, o que você vai deixar e levar pós quarentena?

 

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