Atitude diante do àsana (postura)

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Após mais de uma década de yoga afirmo categoricamente – ásanas (posturas) são um ótimo recurso físico e mental para o autoconhecimento se praticados com a atitude adequada.

Abaixo compartilho algumas observações pessoais advindas da minha experiência particular de práticas cotidianas. Digo isto porque não se trata de um passo a posso ou alguma fórmula mágica, mas de insights que podem ajudar iniciantes e evitar caminhos tortuosos nessa jornada. Alguns deles, experimentados por mim mesma.

  1. Constância. Não há ganho de alongamento, respiração, força, equilíbrio e tantos outros associados a prática de ásanas se não houver constância na prática. Constância aqui significa praticar 3 vezes por semana no mínimo (se acabou de começar) ou diariamente se já é um praticante com mais tempo de experiência. A prática de ásanas produz diversos benefícios, sobretudo, ajuda a purificar o corpo e limpar emoções. Praticar uma vez a cada 7 dias, ou durante 2 meses e depois parar, não adianta nada. Desculpe, mas não adianta nada, absolutamente nada. Pode lhe fazer bem durante um curto período de tempo, mas em termos de mudanças profundas ou não, lamento dizer que não.  O pouco que conquistou se dissolverá no passar do tempo e do dia a dia. E se você não parou, mas possui uma prática eventual. Lamento. O tempo passará e nada acontecerá. A frase – melhor pouco do que nada – não se aplica nesse caso;
  2. A constância desenvolve algo importantíssimo no indivíduo, a disciplina mental e corporal. A disciplina ajuda a construir perseverança e manutenção da prática. Faça chuva ou sol. Cansada ou não. Triste ou alegre. Pouco importa. A prática deve ser encarada para além das suas oscilações mentais ou emocionais. A força mental e foco que tantos almejam na vida advém da afirmação cotidiana consciente de uma escolha. No dia após dia, com o conjunto de afirmações diárias, construímos o hábito e superamos os pequenos obstáculos (preguiça, dispersão, tédio, medo, frustração, e tantos outros obstáculos);
  3. A prática de āsanas deve ser encarada com respeito. Prepare-se, siga as orientações do seu professor. Tome banho antes da pratica, não se alimente 1 hora antes, desenvolva uma relação de respeito com um momento que você dedica a si mesmo. Aprenda a valorizar os momentos e escolhas direcionadas ao cuidado consigo mesmo. Respeitar a escolha que você mesmo fez. Isso é o que muitos chamam – a base do amor próprio;
  4. As posturas (ásanas) de yoga são elaboradas por meio da respiração. Praticar ásanas é respirar. Não há postura sem respiração. Portanto, procure usar a respiração a seu favor, o ásana se move e se aprofunda por meio dela.  Os ásanas  são orgânicos e se moldam pela respiração.
  5. Por meio da respiração, gradualmente o praticante amplia sua consciência respiratória e o movimento do corpo com a respiração, é na sutileza da respiração que é possível entender o corpo, o que ele diz para você, como se move, como é possível acessa-lo, relaxa-lo, ativa-lo e usa-lo a seu favor. Além disso, respirar com consciência exige sua presença, ampliando sua concentração. Procure focar nos movimentos sutis da respiração e do corpo. Concentre-se nas partes do corpo que são mais exigidas na postura. Concentrar-se não é forçar, mas direcionar sua atenção aos pontos que exigem mais de sua energia naquele momento. Respiração travada significa forçar “na marra” a execução de uma postura. Nesses momentos, muitos se machucam. Lembre-se a postura não acontece quando você quer ou porque você quer muito. Mas quando o corpo adquire um conjunto de elementos:  força, flexibilidade, mobilidade, equilíbrio;
  6. Paciência! Paciência! Paciência! A modificação do corpo e da mente envolve tempo e trabalho. Ásanas considerados impossíveis, passam a ser mais familiares com dedicação e com o passar do tempo. Aos poucos, cada postura vai sendo encontrada pelo corpo e se tornando mais fácil e menos penosa. Aos poucos o praticante começa a adquirir a serenidade mental na postura. Conforto e firmeza são conquistados e o àsana (postura) atinge sua forma plena.
  7.  Ao praticar āsanas, observe suas emoções e pensamentos. Como reage ao medo, às frustrações, aos ásanas preferidos e aqueles odiados. Observe, mas não analise, não julgue, não procure entender determinado pensamento ou emoção. Deixe vir e ir. Estabeleça uma relação de observador de si mesmo. Volte sua atenção, quantas vezes for necessário, para a respiração. Verá que a mente é persistente. Independente do que sinta ou pense, ainda sim, há um lugar em que você está acima deles e conseguirá seguir.
  8.   Esforço é importante, mas esforço demasiado pode machucar ou deixa-lo ainda mais tenso. Autocomplacência em excesso também pode afasta-lo da prática e produzir ainda mais letargia e desanimo. O equilíbrio entre estes dois pontos é fundamental para alcançar a tão falada leveza na prática.
  9. Se você ainda não sentiu medo não se sinta um privilegiado. Ele virá e é preciso que venha. O medo é um grande obstáculo na vida quando sentido de modo inadequado. E é um dos grandes obstáculos na execução dos ásanas. Apegue-se a respiração, entregue-se a respiração. Ela tem o poder de acalma-lo, relaxar sua musculatura, articulação e aos poucos produzir aberturas no corpo. Entregue-se à prática, não crie resistência. Sim, o corpo tem limites, porém, a cada vez que ao sentir medo respirar, um lugar de segurança e conforto será criado e aos poucos a mente aquietará diante da dificuldade do ásana. Com o tempo, aquilo que achava impossível de ser feito, já começa a se tornar mais possível. Aos poucos, no diálogo com o medo por meio da respiração, encontramos espaços de serenidade e aos poucos, gradualmente aumentamos os limites da coragem. E, após 2 ou 3 anos, ao  olhar para trás, verá que aquilo que o aterrorizou já se tornou um velho amigo.
  10. Respeite seus limites corporais. Cada corpo é um corpo. Lembre-se o trabalho é olhar para dentro e não se apegar a forma;
  11. A prática de ásanas é individual e intransponível.  Porém, até que desenvolva as qualidades necessárias para sua manutenção consistente, procure um professor e aceite de coração aberto suas orientações. É muito comum o iniciante desejar fazer o que é bom para ele. Muitos alunos já chegam professores. Porém, entenda que um professor é aquele que lhe tira da zona de conforto, lhe diz com amor e respeito aquilo que não lhe soa tão agradável aos ouvidos. Não há mudança sem tocar nos pontos desagradáveis. A experiência de um professor com longo tempo de prática pode ajudá-lo a entender sobre essa ciência e superar os inúmeros obstáculos. Após 2 anos de prática constante, é possível que esteja mais alongado, flexível e com maior mobilidade. Além de outras mudanças por vezes profundas. Contudo, o nível de mudança vai depender do nível de entrega a sua prática e jornada de autoconhecimento.
  12. Evite se comparar, produzir metas de posturas ou construir expectativas distantes do seu corpo ou da sua realidade de vida. A atitude de um praticante deve ser entrega e genuína vontade de mudança. Ao desenrolar o seu tapete, tenha em mente apenas dois objetivos: respirar e executar as posturas da melhor maneira possível a partir das suas condições físicas e mentais. Dê sempre o seu melhor. Mesmo que o melhor do dia não seja o seu melhor. Não espere chegar a lugar algum em termos de forma. O grande trabalho é sutil, interno, e só você é capaz de avaliar as mudanças que ocorreram no âmago do seu ser. E se você ainda não observou  significativas mudanças em sua vida, trate de mergulhar mais fundo em sua prática. A maior motivação que um praticante pode ter é a certeza de que sairá  melhor ao final de uma hora ou duas do seu tapetinho de yoga. Entregue-se ao processo e desenvolva o gosto de apenas respirar e ser.

A prática de ásanas é para a vida. Deve ser executada até o momento em que seu corpo físico lhe permitir. Independe de idade, de sexo, de peso, do tamanho. Onde há corpo, há prática possível.

OM TAT SAT!

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