Navaratri – Festival de devoção a Devi

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Foto: Lakshimi – 2019

O início do verão e o início do inverno são dois momentos importantes que sofrem influência do clima e da energia solar. Estes dois períodos são tidos como oportunidades sagradas de reverência à Mãe Divina. Os corpos e mentes sofrem consideráveis transformações devido as mudanças na natureza. Fato altamente considerado nas civilizações pré-modernas e que foram aniquiladas pelo pensamento moderno e pós-moderno estruturado sob princípios racionais positivistas.

Durga Puja é um dos maiores festivais Hindus no qual Deus, o Absoluto, a Consciência Universal são adorados na forma de Mãe. A tradição indiana conhecida pelos ocidentais como hinduísmo é uma das poucas tradições que considera e enfatiza o aspecto da energia feminina e materna de Deus. A energia materna é uma das maiores potências femininas. Importante destacar que a energia materna não está associada apenas a ser mãe biológica, mas sim a capacidade de amor incondicional, de acolhimento, de cuidado, de solidariedade que o feminino (shakti) revela em nós. Por isso, uma das variadas formas daquele (a) que não tem forma é o feminino representado pela força criadora conhecida também como mãe.

Durga representa a Mãe Divina. Ela é o aspecto energético feminino de Shiva. Sem Durga, Shiva não se manifesta. Sem Shiva, Durga não existe. Shiva é a alma de Durga e Durga é a alma de Shiva. Senhor Shiva é apenas a testemunha. Ele é imóvel, é absolutamente imutável. Ele não é afetado pelo jogo cósmico. Durga é a potência da criação, representa aquela força do fazer, do criar, do nascer, da vida.

Se a primavera é a representação do início de um novo ciclo da natureza, onde todos os seres se preparam para o brilhar do sol, onde a energia solar se manifesta em seu maior esplendor, onde as flores brotam e tudo mais florece, não é a toa que o festival dedicado a celebração de Durga coincida com esse momento do ano e durante a Lua Nova!

Nos três primeiros dias do Navaratri, ela é adorada como poder e força suprema, como Durga – A Terrível. Os rituais, invocações e mantras evocam Durga e sua força destruidora. A única capaz de destruir todas as impurezas, os vícios e defeitos. Ela luta para e aniquilar as características animalescas no aspirante espiritual, a natureza inferior e diabólica contida em nós. Assim como, ela é o poder supremo que protege nosso caminho espiritual de seus perigos e armadilhas internas e externas. Portanto, os três primeiros dias são marcados pela destruição das impurezas e marcam o esforço e luta necessários para erradicar as más tendências em sua mente e que impedem de realizar a consciência suprema.

O Navaratri deste ano iniciou no dia 29 de setembro e termina até o dia 08 de outubro. Durante esse período reserva um momento no seu dia para se conectar com os aspectos do feminino que residem em homens e mulheres. Mentalize positivamente a energia suprema de Shakti. Nesses três primeiros dias concentre-se no aspecto de Durga, aquela que protege todos os seus filhos de todo o mal (sobretudo, os seus lixos internos) e lhe conduz para o caminho da luz. Durga é a representação da força destruidora, é fiel e acolhedora. Assim como uma leoa, Durga é capaz de mover mundos e fundos, ir até as profundezas da escuridão para proteger e salvar seus queridos discípulos de todo o mal!

OM DUM DURGAYEI NAMAHA!

Até que ponto você está comprometido com a mudança?

Escuto muito por aí: preciso mudar, quero mudar, não aguento mais minha vida.

O sofrimento encarado sob uma perspectiva positiva nos ajuda a mudar; a  buscar outros hábitos, romper padrões, condicionamentos mentais e emocionais, interromper ciclos negativos e produzir grandes começos.

Romper hábitos implica necessariamente mudar condicionamentos mentais e emocionais. E é aí que o bicho pega! Como costumo dizer – mudar é trabalhoso, exige muito esforço, gasto de energia, comprometimento, tempo, investimento e, sobretudo, paciência e resiliência.

E, é justamente na hora “H”, no dia a dia, que observo que nem todos estão dispostos a pagar o preço! São inúmeras as desculpas conscientes e inconscientes produzidas por nossa mente nesse processo de sabotagem.  Não há mudança sem começo, meio e fim. Não há grandes mudanças sem pequenas e sólidas decisões diárias que implicam em pequenas mudanças.  Em resumo, implica forte envolvimento pessoal profundo e comprometimento.

A prática de ásanas é uma grande aliada na mudança de hábitos e de condicionamentos mentais e emocionais. Por meio da desintoxicação (e aqui me refiro a limpeza corporal e mental)  produzida pela prática de posturas, associada com a respiração, gradualmente novos hábitos vão surgindo, novas necessidades vão tomando o espaço das prioridades e os velhos padrões são deixados de lado. O que era fundamental passa a ser irrelevante.  É justamente pelos novos espaços que surgem com a prática que novos hábitos vão se acomodando. Sem contar com o aprendizado cotidiano de diálogo e negociação com nossas emoções (outro capítulo). Ao funcionar como uma limpeza, nesse entrar e sair de hábitos, que novos condicionamentos mentais e emocionais surgem.

Pela minha experiência pessoal, posso afirmar categoricamente que é um sistema eficaz e promove grandes transformações. Hábitos como levantar cedo e alimentação saudável podem mudar uma perspectiva de vida!

Bom, todas essas frases soam como clichês. E, certamente são, se não produzem experiências que atuem no campo emocional e mental. Palavras por si só não produzem mudanças efetivas de hábitos e condicionamentos mentais. A experiência, a internalização, é fundamental para a mudança. E isso leva tempo! Vem com a prática, por isso é muito comum ouvir em diversas escolas – pratique e tudo virá.

Almejar as transformações desejadas implica considerar um aspecto da prática fundamental – ABHYASA. A palavra em sânscrito se refere a uma prática regular e constante por um longo período de tempo. Patanjali, sábio que escreveu os Yoga Sutras, método bastante usado para obter o estado de YOGA, categoricamente diz:

abhyāsa-vairāgya-ābhyāṁ tan-nirodhaḥ ॥12॥

O Estado de Yoga é atingido pela prática constante e ininterrupata (abhyasa) e desapego (vairagya).

Qualquer que seja o caminho escolhido, o caminho do Yoga exigirá sempre uma boa dose de esforço regular e disciplina ao longo do tempo, qualidades essas que se renovam a cada passo da jornada. Além disso, dada a profundidade de nossos condicionamentos corporais, emocionais e mentais, a prática regular e constante é fundamental na dissolução desses padrões ao longo do caminho.

Portanto, não há prática de ásana, pranayama, mantras se não for para romper condicionamentos mentais e emocionais. Sim, causa incomodo! Sim, mexe demais! Sim, é você de frente com você!

Por isso, lhe pergunto, até que ponto você está comprometido com sua mudança?

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Mysore – Bangalore – India 2018  / Photo By @fpampy

 

A destruição tem ruído

“Uma semente cresce sem som, mas uma árvore cai com ruído enorme. A destruição tem ruído, mas a criação é silenciosa. Esse é o poder do silencio. Crescer silenciosamente.”

Essa frase é do filósofo chinês Confúcio que data em torno dos anos 500 a.c.

O silêncio nunca foi tão escasso na civilização moderna. O ruído é presente em nosso dia a dia. Somos inundados por ruídos externos e internos. Os exemplos externos são inúmeros e fáceis de identificar. Buzinas, sons de motores, britadeiras, gritos, o barulho pulsante das grandes cidades que se superpõe em camadas infinitas de ruídos.

Os ruídos internos, para além dos barulhos internos dos nossos corpos, estão presentes em nossa mente. Sim, ela é ruidosa e muito barulhenta. Não é preciso ser um meditante avançado para tal constatação. Basta observar suas noites de sono. O encostar da cabeça no travesseiro revela muito sobre nossos ruídos internos. Aquele martelar de ideais, de sons, de pensamentos desconexos, que insiste em continuar incessantemente.

O ruído perturba, agita e desencadeia dores corporais. É nesse ruído contínuo, como um rádio não sintonizado, que parte das nossas capacidades emocionais e mentais se deterioram. E parte dos nossos problemas começam ou são amplificados nessa barulheira.

Se não conseguimos nos escutar o que dirá escutar o outro? E os problemas só se ampliam. Como é possível escutar uma linda melodia se há um som ensurdecedor encobrindo-o? Como escutar o outro com barulho na mente? Quantas vezes durante uma conversa trivial você esteve inteiramente focado no que o outro dizia? Sem ser atravessado pelo seu ruído mental?

É extremamente difícil escutar o outro se não somos capazes de escutar e cessar os nossos barulhos e ruídos internos. Improvável desenvolver relações afetivas profundas, íntegras e de profunda conexão se não há escuta do outro. É impossível nos entendermos, nos transformarmos e realmente caminharmos em direção da felicidade se não somos capazes de identificar esses ruídos e silencia-los. Não há como saber realmente quem somos se há uma balbúrdia de ruídos internos.

Sem escuta não há troca, se não há troca não há relação, se não há relação, não há afeto, se não há afeto, não há humanidade, sem humanidade não há potência criativa, e sem potência criativa não há criação, apenas destruição.

A vida se faz na inteligência suprema que se manifesta na sutileza do silêncio.

Encontrar o sentido da vida é encontrar o silêncio que reside em você.

OM TAT SAT!

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Kerala, India, 2019 – Photo By @fpampy

 

Complicar para descomplicar

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A prática de ásana na tradição yoga tem vários objetivos e benefícios. Tonifica músculos, desintoxica o corpo, amplia a capacidade do sistema respiratório. Além disso, ajuda a exercitar a concentração, aliviar o estresse, a melhorar a qualidade do sono, entre outros tantos benefícios que não se restringem ao corpo físico.

De todo modo, a prática dos ásanas (posturas) não se faz sem a conexão com a respiração. É pela respiração que o praticante adquire foco, segurança, amplia seus limites e relaxa sua mente.

A evolução é individual, se dá ao longo dos anos, e sofre a interferência de vários fatores. Dedicação, compromisso, seriedade e assiduidade são variáveis que vão incidir diretamente no caminhar nessa prática. Sem contar o estilo de vida, hábitos alimentares, histórico de saúde, perfil corporal, entre outros. O importante é entender que o evoluir e o caminhar depende muito do praticante (estudante) e de seu envolvimento com a pratica (nesse caso da prática de ásanas – posturas).

A evolução implica não necessariamente na execução de ásanas (posturas) mais complexos. Por vezes, respirar concentradamente 30 vezes em uma postura simples pode ser tão desafiador quanto respirar 5 vezes em uma postura complexa. Mesmo assim, é esperado que com os anos o praticante vá recebendo e executando cada vez posturas desafiadoras e aparentemente impossíveis.

Certamente, a vida do praticante não mudará efetivamente se ele colocar ou não o pé atrás da cabeça. Tampouco, executar bem posturas de yoga não mede o grau de espiritualidade dos seus praticantes. Porém, executar um ásana complexo (postura complexa) é uma bela experiência e treinamento mental e físico. É aprender a complicar para descomplicar a vida.

É no desconforto de uma postura complexa, apreendendo a respirar no desconforto que a mágica acontece. Aprender a controlar a respiração mesmo quando não há espaço para respirar é criar espaços de conforto no desconforto. É aprender que é possível tranquilizar a mente mesmo quanto tudo à sua volta desmorona. É entender que enquanto há vida, há respirar e, enquanto há respiração, há chances de viver e ultrapassar qualquer dificuldade. Habituar-se a respirar nessas situações proporcionadas pelos ásanas (posturas) é construir novas capacidades de superação do desconforto. É elaborar novas memórias mentais, físicas e emocionais que transbordam em novas conexões neurais que podem ser acessadas em situações emocionalmente similares. É aprender a sobreviver quando o ar é rarefeito. É torna-se resistente e forte mesmo quando não há espaço para uma simples inspiração. É realizar que você, o real você, e sua potência criativa está para além das formas.

É nesse espaço de ar que aprendemos a encontrar durante o torce e contorce que a beleza e a magia dos ásanas residem!